O enigma da esfinge
- Cris B
- 17 de fev.
- 4 min de leitura
“Es imposible vizitar Ushuaia sin comenzar a amarla”. Assim começa a obra de Arnoldo Canclini, “Así Nació Ushuaia”. Canclini não é um fueguino (gentílico de quem nasce na Terra do Fogo), mas um dos milhares que aqui chegaram e imediatamente se viram enredados em um caso de amor. Como eu.
Aliás, é bom esclarecer: “Terra do Fogo” e “Fim do Mundo” são nomes frequententemente usados para se referir a Ushuaia e servem bem à promoção turística da cidade, porém não são exatamente a mesma coisa: Terra do Fogo é o nome de um arquipélago do extremo sul da América (parte pertence ao Chile e parte à Argentina). Este insular é formado por diversas pequenas ilhas e a Ilha Grande da Terra do Fogo, onde fica a cidade de Ushuaia, capital da província da Terra do Fogo, Antártica e Ilhas do Atlântico Sul - como é denominada a porção argentina da área. A expressão Terra do Fogo é atribuída aos primeiros europeus que navegaram pela região, que segundo os registros locais, quando se aproximavam da terra avistavam fogueiras, que não eram outra coisa senão o sistema de calefação da época, que amenizava o impacto do frio para os povos nativos - além de servirem para cerimônias e rituais religiosos, por supuesto. Por outro lado, a posição geográfica da cidade - o povoado urbano habitado mais austral do planeta - deu origem ao termo “Fim do Mundo”, amplamente explorado pelo comércio e pelo turismo. De camisetas e chaveiros a museus e parques temáticos, tudo lembra ao turista o tempo todo que depois daqui não tem mais para onde ir: “world over”. Viajantes dos quatro cantos do mundo vêm a Ushuaia para, além de desfrutar de suas belezas típicas e naturais, ter a experiência única - com direito a carimbo no passaporte - de passar uma temporada no “Fim do Mundo”.
A origem do nome Ushuaia vem do Yagan, idioma falado pelos primeiros habitantes conhecidos destas terras geladas (para quem se interessar mais, vale à pena ler o Arnoldo Canclini), e significa Baía (Ushu) Profunda (Aia). Detalhe: a pronúncia é “ussuaia”, o “sh” tem som de “dois esses” e não de “x”.
Com a chegada da colonização europeia, os Yaganes desapareceram rapidamente, dizimados por epidemias que vieram de brinde nos navios, ou aculturados - os poucos que restaram - pelas missões civilizatórias (com todas as aspas) do Velho Mundo.
Cada um pode ter seu ponto para se apaixonar por Ushuaia - difícil é sair daqui indiferente. No meu caso, são vários, ou por que não dizer: todos. O clima frio sem ser extremo (variando de zero a dez graus em boa parte do ano, com pouco mais ou pouco menos, dependendo da estação) é para mim o MVP (Most Valuable Player - ou jogador mais valioso) do espetáculo. Com o aumento assustador das temperaturas a cada ano e a minha extrema sensibilidade ao calor, Ushuaia é um sopro de vida frente à churrasqueira humana que está virando o planeta. Esta cidade de pouco menos de cem mil habitantes e com meia dúzia de prédios maiores do que de três andares é uma peculiar combinação das pequenas cidades europeias - em especial as escandinavas (conheça Vallentuna), onde o frio é constante o ano todo como aqui, com aquelas cidades do interior dos Estados Unidos. Se você assistiu Stranger Things, pense em algo como Hawkings, mas sem monstros chupadores de cérebro, mundos invertidos e laboratórios altamente suspeitos. A maioria das moradias tem uma formação própria para suportar o frio e a neve, da calefação interior às paredes externas de zinco, que dão uma charmosa aparência de container e servem para escorrer mais facilmente a neve quando o sol começa a fazer o seu trabalho. Aqui não se vê pichações, lixo nas calçadas, moradores de rua e não há violência ou criminalidade. A sensação de segurança não é apenas sensação: de fato não há roubos, assaltos ou importunações por aqui. Talvez a presença do presídio desativado e a lembrança dos horrores que nele eram praticados ajude a manter as coisas em ordem. A geografia da cidade, cercada por mar e montanha exuberantes e um sem número de lagoas, rios, parques, trilhas, etc, atraem os adeptos dos esportes de aventura - ou apenas os que encontram a paz suprema e a presença do Sagrado nas diversas manifestações da Pachamama - caso aqui deste modesto escriba. Por fim, para os porto alegrenses que consideram Bela Vista ou Moinhos de Vento “bairros nobres”, Ushuaia fica entre o Canal Beagle, por onde Charles Darwin passou em suas incursões científicas, e o Estreito de Magalhães, descoberto pelo navegador português no século XVI, quando sua esquadra completou a considerada primeira circunavegação do globo. Estamos falando de prateleiras diferentes.
Ushuaia é um convite, um desafio, uma provocação. Um sentimento, uma paixão, uma devoção. Um mistério a ser explorado e desvendado, como o enigma da esfinge de Tebas: “decifra-me ou te devoro”. Decifrar Ushuaia, neste caso, é conhecer, compreender, experimentar e desfrutar todas as maravilhas e possibilidades oferecidas por esta jóia rara encravada entre o Glaciar Martial - montanha nevada que circunda a cidade como um grande anfiteatro de onde os Apus e os Condores guardam e a contemplam e o mar límpido, cristalino e gelado da “Baía Profunda” de Ushuaia.
Ushuaia, Fim do Mundo, 17 de fevereiro de 2026.


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